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quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Amores Inventados: O Cara da Loja

Certa vez, disse Saramago sobre a angústia de pertencer a tudo, mas não caber em lugar algum. Eu entendia bem desse sentimento, com a diferença de que, no meu caso, eu sequer pertencia a algum lugar.
Saí de casa sem porquê, com destino a sabe se lá onde.
Acabei dando por mim no shopping mais próximo à minha casa. Tenho pra mim que, shopping, as pessoas procuram por duas razões: por carecerem de um motivo mais nobre pra viver e pelo ar condicionado em dias quentes. Eu, logicamente, estava ali por ambos.
Entrei numa loja aleatória. Dirige-me sozinha às araras do setor direito mais ao fundo. Engraçado o dom que os vendedores têm de discernir entre quem entra convicto de comprar e quem tá lá só passando o tempo. Se bem que uns tantos já me alertaram que, na vida real, não era exatamente assim que as coisas funcionavam. Devia ser, então, por culpa da minha cara de poucos amigos, ou de desolação com a vida, ou de "pérrapada"; ou, ainda, de todas elas juntas. O fato era que ninguém me incomodava e eu podia, assim, deleitar-me no ar fresco da loja por quanto tempo quisesse e pudesse sobreviver àquele ambiente planejado e organizado e dividido por cores e tamanhos e estilos.
Peguei meia dúzia de peças e fui ao provador. Fechei a cortina atrás das minhas costas e me preparei para um dos meus momentos preferidos na vida: quando estamos sozinhos dentro daquele cubículo, cuja iluminação faz a gente se sentir mais perto de ser alguém na vida. Penso que esta é um dos artifícios mais ardilosos da publicidade: totalmente enganosa. As roupas nunca ficam tão bonitas fora dali e a gente chega nem perto de parecer tão gostosa quanto lá dentro. De todo modo, era boa a sensação de estar ali. Por me sentir mais bonita, claro, mas também por pensar que as pessoas ali fora e no cubículo ao lado não faziam ideia do show que eu dava lá dentro. Experimentei cada peça com a ânsia e o alívio de quem nunca mais vai usar nenhuma delas. Fiz pose de modelo. Empinei a bunda e desci o decote. Desejei-me. Pedi-me em namoro só pra poder me dar, eu mesma, um grande fora. Eu ria e chegava até a pensar que aquele lugarzinho insignificante e escondido fosse, enfim,  o meu lugar. Ademais, eu devo dizer, usufruir de alguns minutos de diversão gratuita no antro do capitalismo era algo que fazia muito bem pro meu eu rebelde reprimido.
Mas eis que a vida havia de seguir para além daquelas cortinas e eu havia de voltar à programação normal do look cotidiano.  Olhei-me no espelho e a menina que me olhava de volta usava meia com chinelo, uma calça nada a ver com a blusa, cabelo despenteado e tinhas as unhas por fazer. Essa era tão mais eu do que todas as versões anteriores; tão desajeitadamente eu. 
Saí. Não satisfeita, mas conformada de ser só quem eu era. Senti da cabine ao lado, um olhar fixo que me acompanhou desde meu primeiro passo além daquele mundo oculto. Há quanto tempo estaria ali imaginando quem devia estar lá dentro? Olhei de relance e vi que as roupas dele também não faziam o menor sentido. Mas era bonito o modo disforme como ele se vestia. E era elegante o modo perplexo sem ser invasivo com que me olhava. 
Continuei andando e deixei as roupas sobre o balcão na saída. Virei-me a olhar mais uma vez aquele olhar curioso que me rondava. Talvez ele também estivesse ali procurando um pouco de rebeldia dentro da cabine do provador. Talvez ele soubesse exatamente o que eu fazia lá dentro e, então, sem que nos déssemos conta, éramos cúmplices no mesmo crime de experimentar de tudo sem nos comprometermos com nada. Talvez ele estivesse tão somente buscando pertencer a algum lugar, assim como eu.

E foi com esse pensamento que me apaixonei por ele, da saída da loja à saída do shopping. Para além disso, era exagero gastar tempo com paixões, quando eu precisava de tanto tempo pra tentar caber em tantas coisas e, sobretudo, pra lidar com eterna angústia de não pertencer a nenhum delas.

#omundodemavi #amoresinventados 

domingo, 20 de janeiro de 2019

Amores Inventados: O Cara da Tabacaria

Nada me incomodava mais do que relembrar velhos amores que de nada serviram. Desses que a gente sente duas grandes felicidades: quando chegam e quando vão embora. O problema era eu e minha mania de nunca conseguir deixá-los ir completamente. Minha vontade quase que insuportável de rememorá-los, vez ou outra, só pela leveza de sentir que nada mais nosso existia, apesar do que deles, em mim, restara: aquele embrulho incômodo no estômago, algumas crises de ansiedade e um psicológico abalado.
Quis eu, nesse dia, abrir uma conversa com um ex qualquer, só pra cutucar meu ego e fazê-lo entender que existem coisas, com as quais, ele era incapaz de lidar. Reli meus "eu te amo" cheios de amor. Questionei-me a que ponto ia minha obssessão por  amar alguém na tentativa de autoafirmar um amor que, sabia bem, nunca poderia dar.
Senti uma asco de mim mesma. Um sabor àspero das palavras que um dia deixei que escapassem sem sentido da minha cabeça. Algumas coisas deveríamos ser responsáveis o bastante pra manter guardadas em silêncio. Não era meu caso. No quesito responsabilidade, eu era a primeira na lista dos reprovados.
Eu precisava de um cigarro, qualquer coisa que me tirasse aquele sentimento de repulsa. Se eu fumava? Às vezes. Quando o enjôo somente não basta, a gente acende um cigarro e deixa ele queimar, na esperança de matarmos algo dentro de nós, que não um pedaço de nós mesmos.
Fui à tabacaria, pedi um Kumbayá. Cigarro leve e apropriado pro meu espírito aprendiz na arte malandra dos fumantes. "Quase um chá, nem dá onda", diziam os experientes.
O cara me ofereceu um com tabaco. Dei de entendida e aceitei.
"Seda, você já tem?"
"Tenho sim."
E o pior é que eu tinha mesmo. Tinha seda do mesmo modo que tinha uma vontade enorme de amar. Pra que ambos serviam, eu não fazia ideia. Não sabia bolar, assim como não sabia amar.
Ele me olhou com um olhar de maconheiro convicto. Penso que viu em mim a mina bem resolvida que acende um só pra relaxar, só pra desbaratinar e desligar daquela sociedade careta e hipócrita que condena a erva que lhe convém condenar, que tira a escolha de alguns por não saber ser dona das consequências das suas próprias escolhas.
Imaginei ele ali largado, a fala arrastada, o sorriso solto e os zóin sem dono, curtindo a brisa do momento, sem se preocupar com qualquer julgamento. Pareceu-me divertida essa coisa de viver só o presente, de ser só o que se é, sem medo do depois.
Perguntei o valor. Pedi que passasse no crédito. Mês que vem eu resolvo esse meu pseudo-surto pós-adolescente.
Peguei minha sacola e já ia me retirar, quando ele me desarmou falando que, na próxima semana, chegariam tipos novos, sem tabaco.
A última frase ressoou na minha mente. Eu pensara errado. Ele sabia da minha inexperiência, da minha ingenuidade com as coisas do mundo. Ele sabia do meu desespero em me deparar sozinha, em casa, com umas sedas aleatórias e um fumo que me derrubaria e me levaria ao fundo da minha própria existência.
Pensei em convidá-lo pro rolê, só pela comodidade de ter quem resolvesse o problema da minha inabilidade manual. Cheguei a imaginá-lo jogado no meu sofá, fitando-me com seu olhar chapado enquanto ia me ensinando, da vida, as coisas mais loucas e cheias de sentido. Desejei verdadeiramente aquele encontro, diferente de todos os outro, mas a companhia de alguém livre só me jogaria na cara o quão rara era, pra mim, a liberdade. Eu não sabia sequer me livrar dos amores que, no passado, inventara.
É. Eu não sabia bolar, assim como não sabia ser livre pra amar.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Amores Inventados - O Cara da Fisioterapia

Não era só minha vida amorosa que era um desastre. Na verdade, toda minha vida era. Quis eu entrar na moda da galera fitness e logo fui colocada no meu devido lugar: um tropeço na escada ao final do treino, um ligamento rompido, um tornozelo imobilizado por seis semanas. Assim mesmo, de repente e sem glamour. Nada perto de uma grande performance, dessas que dão até orgulho guardar lesões e cicatrizes. Nada. Somente uma menina torta caída no chão. 
Comecei a fisioterapia como recomendado. A vatangem era que, ali, eu me sentia menos destoante. Não precisava competir com o velhinho do joelho zoado, nem com a tiazinha da pelve quebrada. O meu baixo nível atlético era completamente aceitável e todos pareciam realmente acreditar que era por culpa do meu tornozelo machucado. Fisioterapia devia ser modalidade esportiva, eu pensava. 
Naquela tarde, contudo, não consegui ir no horário de costume. Marquei a sessão pras 19:00. Cheguei mais cedo e esperei sentada na maca da sala de exercícios. Vi um cara na maca ao lado. Devia estar ali pelo mesmo motivo que eu. Tínhamos algo em comum: revezar a mesma profissional, talvez os mesmo aparelhos. O ponto é: tínhamos algo em comum e aquilo já era suficiente pra disparar as paranóias da minha cabeça, ainda que eu tivesse achado horrorosa a combinação da camisa com o a bermuda que ele.vestia.
"Fez o quê ai?"
"Rompi o ligamento."
"Nossa! Dói, ne?"
"Foi parcial, não dói tanto assim. E você?"
"Cai de moto. Rompi o ligamento cruzado do joelho."
Ele falava "ligamento" de um jeito engraçado, tinha algum sotaque forte de quem não era dali. E eu era a louca dos sotaques. Por mim, ficaria ali ouvindo ele falar por horas a fio só pra tentar descobrir as diferentes histórias de diferentes lugares que aquele linguajar guardava em si. Mas a fisioterapeuta chegou e a única coisa que revezamos foram olhares longínquos, um para o outro, dos cantos opostos da sala. Ele era meio desengonçado e, de certa forma, aquilo me fazia bem: eu ria dele e, aposto, que ele ria da minha falta de habilidade também. 
Uma hora quase se passou entre olhares trocados. Penso que aquele amor foi um dos mais duradouros que já tive. Tive até medo dele se tranformar em algo real. Bobeira.
"Lucas, mesmo horário semana que vem?"
"Sim, já avisei minha noiva que das 19 às 20 sou seu, mas, depois disso, sou só dela."
"E vc, querida?" 
"Qualquer um que não o das 19."
Ela riu e eu entendi o porquê de ter nos separado durante toda a sessão. 
Das 19 às 20, ele fora dela. Depois disso, ele foi da outra. Meu, ele foi só mais um numa coleção inacabável de amores inventados. 

#omundodemavi

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Diário de Uma Pós-Adolescente: Amores Inventados

Dos meus hobbies, inventar amores era o que mais gostava. Amores inventados já eram tão recorrentes na minha vida, que eu sentia que nunca mais amaria tanto alguém de verdade como amava na minha própria cabeça. A minha dificuldade de criar laços na vida real, era suprida pela fertilidade da minha mente que, a cada esquina, esbarrava numa história de amor diferente. E eu sentia que, ainda que inventar amores pudesse soar triste e solitário pros demais, pra mim, era intrigante imaginar quantos inimagináveis amores eu poderia amar. 


MaVi


#omundodemavi

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Já era tarde no meu coração quando você se foi. E eu que era teimosa, esperei o dia nascer pro meu eu clarear novamente. Mas o estado de alma, como bem disse Fernando Pessoa, é como uma paisagem. E, desde que você se foi, coincidência ou não, a despeito do dia que lá fora nasce, aqui dentro o meu eu tem andado tão cinza e tão vazio. 


MaVi
#omundodemavi

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

A Caminhada

Relaxa tua mente
Acalma teu coração
Essa pressa toda pra quê se é dentro de vc, e em nenhum outro lugar, que vivem os sonhos?
Acaricia tua criança interior
E põe pra fora toda a angústia que cala o teu verdadeiro ser
Deixa ir, deixa chorar, deixa a alma lavar
Ironia essa do teu sorriso ficar ainda mais lindo quando teus zóin se enchem de água
Cê ainda lembra da canção que dizia pra tu não se afobar?
Sábio foi mesmo Chico que disse que nada é pra já
Então escolhe com calma teu caminho
Desfruta cada passo da tua jornada
Pois por melhor que seja a chegada
No fim, o que importa mesmo é a caminhada.

MaVi

#omundodemavi

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

20 de Outubro de 2015 - Penitenciária Adriano Marrey, Guarulhos.






"Moça, eu tenho um presente aqui, que eu fiz pra dar pra quem sentasse comigo na reunião de hoje. Como foi você, eu gostaria de te dar. Você aceita?"

Angelo Maximo de Oliveira Barbosa, 34 anos, preso por receptação de veículo roubado.

A arte, ele aprendeu na prisão. A linha, ele teve que comprar de outro detento. A 'esperança' que ele grafou ali é a maior arma que ele possui pra lutar contra a rotina sufocante e desumanizante do cárcere. A gratidão que ele demonstrou nesse pequeno ato é prova de que o cárcere precisa ser visto como parte integrante da sociedade, e não como parte isolada e ignorada, como acontece hoje.

Eles nos fizeram acreditar que ali dentro só existiam monstros. É difícil - pra não dizer incômodo - ver que ali existem também seres humanos.


MaVi


#cárcere #GDUCC #escrevaescrevaescreva #keeponwriting #omundodemavi

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Da Série: Enquanto o Sono Não Vem

Tinha uma mania estranha de amar tudo que não era dela, tudo que a ela não pertencia. Aliás, coisa chata pra ela era essa das pessoas quererem ter pra si tudo aquilo que amam. Escuta: deixa estar, deixar ir, deixa voar. Nada é mais encantador do que a liberdade. Então deixa livre quem se ama pra voar. Se quiser voltar, que seja por querer e não por ter. Amar é uma questão de sentir, não de obedecer. Se não quiser também, amém, por falta de amor que não será. O objeto do amor nunca foi nosso, nem nunca será. Nosso é tão somente a capacidade de amar e o amor que podemos dar.

#amor #escrevaescrevaescreva #keeponwriting #omundodemavi

MaVi





terça-feira, 11 de agosto de 2015

Feliz 188!


O quinto ano chega cheio de pressão: é prova, tese, OAB, concursos e o famoso "que porra eu vou fazer da minha vida agora?" Dai, a gente começa a odiar tudo: a burocracia, o direito, as aulas (se é que um dia a gente gostou delas), os professores (se é que um dia a gente gostou deles) e até as arcadas ( o bandex não, porque o bandex sempre salva!). Dai, a gente começa a descontar tudo na Velha Academia, se perguntando porque diabos a gente escolheu estar ali. Eis que dai, a gente resolve remexer nos arquivos da vida e se depara com aquele e-mail que a gente mandou pro professor no dia em que a gente passou no vestibular. Dai, a gente se toca da injustiça que tá cometendo, relembrando que um dia, a tal Velha Academia foi o motivo da nossa maior alegria. 

Sanfran, desculpe-me pela ousadia. Eu fui filha rebelde, mas não foi por maldade. Agora que a minha trajetoria está chegando ao fim, mal posso segurar a saudade. 
Se serei advogada, juíza, jurista de verdade? Quem sabe? Mas uma coisa eu serei com certeza, serei sempre Franciscana.

Feliz 188!



From: pitita_ptt@hotmail.com
To: vaipapu@hotmail.com
Subject: EU SOU FODAAA!
Date: Fri, 19 Feb 2010 05:40:55 +0000


Vogt,

primeiro eu gostaria de me apresetar. Eu fiz extensivo manhã em 2009 e me sentava no fundo da sala. Eu sou aquela que respondia “não” toda vez que você perguntava sorridente: “Vocês estão bem classe?”; e sou eu tbm que gritava “bixa” toda vez que sua voz falhava ou que vc resolvia se soltar lá na frente. Sou eu ainda que chorava de rir quando vc cantava aquela música do shampoo. Por último, eu sou aquela que por tantas vezes vc pediu pra ficar quieta, mas pra quem vc nunca negou atenção quando eu tive dúvidas. Sabe, eu sei que a minha descrição foi bem vaga e que ela pode se referir tanto a mim, quanto ao poliedro todo, mas ainda assim, esse ano, eu não fui apenas e tão somente mais uma aluna. Vogt, eu passei na PORRAAAAA DO LARGO SÃO FRANCISCOOO e quer saber?? EU SOU FODAAAA!!!

Eu sei que além de mim passaram mais 459, mas isso não importa. O MEU NOME TAVA LÁ! Eu chorei que nem criança, parecia que eu saia na rua e todo mundo me olhava com admiração...hauahauahau O trote foi um dos dias mais especias da minha vida, eu sorria à toa. Nunca foi tão bom fazer pedágio embaixo de sol do meio-dia.
Agora eu sou livre pra dividir por 0 e de física só me lembro de que “os opostos se atraem”...;)

Brincadeiras à parte, tudo isso foi pra agradecê-lo por todo apoio, por toda a paciência e atenção. Talvez eu nunca vá compreender o real significado do que é ser professor, mas já não me é tão estranho pensar no que motiva pessoas a trabalharem das 7:00 às 21:00, de segunda à sábado, incluindo feriados....Obrigada por me ajudar a realizar o meu sonho, PROFESSOR!




                                                                                                                        MaVi

#Feliz188 #Sanfran #VelhaAcademia #escrevaescrevaescreva #keeponwriting #omundodemavi

Essa Gente

Essa gente que segue o que sente. Essa gente que ao coração não mente. Essa gente louca, inconsequente. Essa gente que assusta tanto a gente. Essa gente é que é feliz, infelizmente. 

MaVi

#Essagente #escrevaescrevaescreva #keeponwriting #omundodemavi


sexta-feira, 12 de junho de 2015

Feliz Dia do Amor

            Eu era ainda pequena quando ouvi essa palavra pela primeira vez na boca de gente grande. E gente grande é assim: tem mania de querer enfeitar, falar bonito e acaba dificultando tudo. Eles diziam, eu me lembro, que havia no mundo uma força oculta chamada amor. E essa força era tão grande e poderosa que era capaz de mover montanhas e de fazer chorar até o mais forte dos homens. Eu não entendi muito bem o que eles queriam dizer com isso, mas cresci achando que o tal amor deveria ser algo bom.
            Alguns anos depois, ainda no colégio, eu escutei algo que, mesmo ainda não fazendo sentido, me deixou bastante intrigada. Foi na aula de Literatura, cujo professor era uma dos meus prediletos, que eu ouvi pela primeira vez aquela que, posteriormente, se revelaria a mais difícil das verdades: “Já dizia Camões – ele falava – que a amor é o sentimento mais dúbio que existe, porque o amor vai te trazer a maiores felicidades e os sorrisos mais doces, mas também as piores dores e as lágrimas mais amargas.”
            Pois bem, eu cresci. E a vida se encarregou de me mostrar que era exatamente assim que o amor funcionava. E eu me vi indo do extremo da felicidade ao extremo do desespero e tristeza, sem sequer entender porquê. Num dia eu me vi sorrindo sem motivo e pensando que o mundo poderia acabar no instante de um abraço; e, no outro, na agonia de ter que deixar o outro partir, de ter que dizer adeus, de me sentir sem chão e sem vontade até de comer (e olha que eu gosto muito de comer!).
            E neste instante eu senti saudade de mim quando não entendia nada do amor, ou de quando amor pra mim se resumia ao “te amo, papai” e “te amo, mãe”. Eu me senti frustrada e enganada pelos meus próprios sentimentos. Eu me senti a mais estúpida das pessoas, a mais boba das crianças. Eu senti raiva do amor e do amar e cheguei a preferir ter dois cérebros no lugar de um coração pra ver se a vida se tornava um pouco mais racional.

            Hoje eu rio da minha própria inocência. E não, não é porque eu amadureci e aprendi a lidar com as dores do amor – mesmo porque eu acho que contra isso não existe remédio - mas é porque eu aprendi a entender o amor. E eu enxerguei i que o amor é algo muito maior do que o que se costuma chamar de amor e a sua grandiosidade se faz até na sua simplicidade. Porque o amor não complica. Não, pelo contrário. Ele se faz presente e se constrói naquilo que cada um de nós é capaz de amar. E a verdade que ninguém nunca nos contou é que não somos nós quem escolhemos o amor, é o amor quem escolhe a gente. 


MaVi

#diadosnamorados #diadoamor #escrevaescrevaescreva #keeponwriting #omundodemavi

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

O Natal Pertence às Crianças

Foi uma noitada até que boa pra um 23 de Dezembro: duas doses de Jack Daniels, alguns shots de José Cuervo, meio maço de Malboro Vermelho; uma menina embriagada, um Natal arruinado, né?
                É, eu odiava o Natal.  
                Natal pra mim já deixara de fazer sentido há muito tempo. Nunca fui do tipo religiosa, Igreja sempre foi sinônimo de “as chatisses a que sou obrigada pelos meus pais”e Natal era o Ó da hiprocrisia. Aliás, por diversas vezes já me questionei se as pessoas de fato sabem o que se comemora no Natal, além da gula e do consumismo. Além da vaidade de fingir que se tem uma família linda, unida e feliz. Ainda bem que inventaram o Papai Noel, talvez ele seja a coisa mais real que exista no Natal.
                Já eram 6:30 da manhã quando eu voltava pra casa. Minha cabeça latejava e eu só conseguia imaginar o som estridente da voz da minha mãe me acordando a dali algumas horas pra ajudá-la com os preparativos do Natal.
                “Onde você guardou os enfeites de mesa?”
                Eu odeio o Natal.
                “Já colocou o Peru no Forno? O pudim ainda tá no fogo? Vai queimar!”
                Eu odeio o Natal.
                “Já escolheu sua roupa? Ainda não tomou banho? Tem que estar bonita! Suas primas vêm sempre tão arrumadas! ”
                Meu Deus, desculpa eu a hipocrisia, mas eu odeio o Natal.
                Ergui o volume do rádio pra ver se calava a boca daquele meu superego inconveniente tranvestido de mãe. Deixe-me em paz, será que eu não posso simplesmente não gostar do Natal?
                NÃO EU NÃO PODIA! E foi o próprio rádio quem jogou isso na minha cara ao começar a tocar aquela velha e conhecida música de Natal da Simone “Então é Natal”. Lembra? Aquela que começa te perguntando “e o que você fez?” e que diz que Natal é coisa "do velho e do novo”, “do amor como um todo” e termina falando de Hiroshima e Nagasaki. Na boa, acho aquela música um puta apelo emocional, como se eu fosse obrigada a me comportar direitinho pra ser recompensada por isso depois. (E que tipo de recompensa? Hein? Será que eu quero?) O problema é que eu, assim como muitos, eu acredito, cresci ouvindo aquela música no Natal e quando ela começou a tocar no rádio foi a vez dos meus pensamentos flutuarem.
                E eu me lembrei da época em que, pequena, esperava ansiosa pelo Natal. E não só por causa dos presentes – mas principalmente por eles – mas também porque Natal era quando a casa estava em festa. Lembrei que Natal era quando eu via um montão de gente que vinha de longe. Tá certo que pra maioria eu não dava a mínima, mas tinham alguns poucos que eu gostava muito e que era só no Natal quando eles vinham. Alguns que, inclusive, nunca mais verei. Lembrei que Natal era quando eu ainda acreditava que meus pais se amavam, pelo menos eles fingiam bem isso, e quando nenhum deles tinha que dormir cedo pra trabalhar no dia seguinte. E era só no Natal quando a nossa família estava completa. Lembrei que só no Natal eu não brigava com o meu irmão, já que ele, entretido com os seus brinquedos, esquecia de mim e das minhas bonecas. Natal era quando eu podia ficar acordada até de madrugada e era a única ocasião durante a minha infância em que eu dormia picado, já que acordava diversas vezes durante a noite pra conferir se meus brinquedos estavam lá ou se tinham sido só sonhos. Lembrei que no Natal eu podia comer quantos doces quisesse que nenhuma cárie iria me pegar. Lembrei que Natal era quando eu me sentia feliz ao ir dormir e continuava feliz ao acordar, sabendo que aquela comida gostosa ainda estaria lá.
                Eu não me lembro da música acabar e demorou ainda um tempo mais pra eu conseguir me situar. Durante aqueles poucos instantes em que estive longe eu revivi o Natal que o tempo havia levado de mim. O verdadeiro espírito de Natal que eu conheci quando criança mas que, infelizmente, eu deixei morrer junto ao envelhecimento do meu próprio espírito. E senti que a minha maior ingenuidade tinha sido odiar o Natal pelo ódio que eu mesma acumulara do mundo e das pessoas. Não, eu não podia simplesmente odiar o Natal; eu não tinha esse direito. O Natal, o verdadeiro Natal não pertencia a mim nos meus arrogantes 23 anos, porque o Natal não pertence aos adultos que nos tornamos, mas vive junto a nós na lembrança da criança que um dia fomos.
                Minha cabeça ainda latejava quando eu cheguei em casa. Com alguma sorte conseguiria dormir umas 3 horas. Olhei a árvore de Natal no canto da sala e abaixo dela um embrulho com o meu nome. Perguntei-me se eu realmente merecia ganhar alguma coisa no Natal. Não, eu não merecia. Mesmo assim, dormi picado imaginando, ansiosa, o que conteria o tal embrulho.  
 
 
                                                                                                                     MaVi
 
#natal #escrevaescrevaescreva #keeponwriting #omundodemavi

domingo, 30 de novembro de 2014

Teu Eu

Deixa a música rolar, deixa a vida acontecer: pra quê tanta pressa? Lugar melhor não há a conhecer do que o interior do nosso próprio ser.

Põe de canto as coisas tuas, senta aqui do lado meu, fuma só um cigarro mais; conte-me mais sobre você.

O amanhã pra mim não serve; amanhã nossos sonhos e medos serão outros, nosso hoje será pouco.

Então fica mais alguns instantes, abraça-me nos braços teus, beija os lábios meus, envolve-me no teu eu.

MaVi
#teueu #escrevaescrevaescreva #keeponwriting #omundodemavi

domingo, 2 de novembro de 2014

Insônia

Insônia? É, insônia! Sabe o que é? É que, no fundo, eu gosto mesmo é da noite. É, da noite. A noite me intriga. Porque é quando a noite vem que os sentimentos afloram e que as pessoas são mais intensas. É sempre a noite que guarda as melhores festas, os maiores porres e os beijos mais quentes. Aliás, lembra daquela "noite" inesquecível? Mas é à noite, também, que a solidão bate forte, que a casa, escura, fica sombria e que a menina, sozinha, olha a cama vazia e chora abraçada ao travesseiro. É sempre à noite; nunca de dia. E enquanto os dias se repetem, viram rotina, a noite se renova, se inova e traz consigo sempre uma nova história. Insônia, né? É assim que eles chamam. Pois é. É realmente uma pena que pra eles a noite seja feita pra dormir.

#insônia #escrevaescrevaescreva #keeponwriting #omundodemavi 

MaVi

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Tem Sempre Aquele

Tem sempre aquele que rouba a cena, pelo menos a sua. É sempre ele que, quando chega, todo o resto perde a graça. É sempre ele que faz o mundo andar em câmera lenta, enquanto o seu interior entra em completa convulsão. É perto dele que as pernas tremem, que as mãos suam e que o coração parece querer pular pela boca. É só pensar no sorriso e no perfume dele que você estremece da cabeça aos pés. É pra ele que um simples “oi” se torna a coisa mais difícil de dizer. É só pra ele que você vai pensar duas vezes antes de mandar um "sms" perguntando se tá tudo bem. É ele quem te faz perder o controle; não fosse ele, você disfarçaria bem que é normal. É ele o seu ponto fraco, o seu calcanhar de Aquiles. Foi pensando nele que você passou a noite em claro, ou que deixou de estudar pra prova mais difícil, ou que virou três doses de tequila na balada; e se bobear, eu não duvido, ainda fez as três. São as semelhanças com ele que te chamaram atenção naquele outro. E, mesmo este outro sendo muito melhor que ele, só ele te abraça daquele jeito que você sabe como.
Pois é, tem sempre aquele que, valha muito ou que não valha nada, o coração procura em meio à multidão. 
Sei lá, né, vai entender?! A vida tem dessas.

#ele #amor #escrevaescrevaescreva #keeponwriting #omundodemavi

MaVi

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Amores Inventados - Estagiária

Pelo modo como reagiu, eu causara nele o mesmo desconforto que ele em mim. O mesmo desconforto, encarado, porém, de formas tão irritantemente distintas, em razão de realidades tão humilhantemente - pelo menos pra mim - distantes. Enquanto eu fazia de tudo pra desviar os olhos dos seus, ele fazia justamente o contrário. E eu queimava por dentro ao sentir que ele lançava um olhar demorado, reparando cada pedaço de mim: desde os cabelos presos pra trás pela tiara de pérolas, passando pelo singelo decote que a camisa social permitia, descendo até minhas unhas mal feitas e a saia barata dessas lojas de departamento, terminando junto ao salto que ele nunca entenderia como se equilibrar sobre. Ele sabia como me deixar sem jeito, como me desarmar. E eu sentia que, no fundo, ele fazia tudo de propósito, como se precisasse descontar em mim a raiva de não controlar o desconcerto que eu também causava nele. Nós mal nos falávamos; eram sempre somente algumas poucas e mal pronunciadas palavras obrigadas, que dizem o necessário, mesmo sem quase nada dizer. Sempre assim: uma guerra de nós quatro; cada qual de nós contra nós mesmos. E todo dia, quando eu fechava a porta atrás de mim, só conseguia pensar no dia a menos que faltava pra completar os dois anos e meio de estagiária que ainda me restavam pela frente. Então respirava livremente pela primeira vez desde que deixara aquela sala, numa mistura de alívio e decepção.

#amoresinventados #estagiária #keeponwriting #escrevaescrevaescreva #omundodemavi

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Chorar não é preciso, mas necessário.

Às vezes é necessário chorar; chorar muito. Deixar correr as lágrimas, borrar a maquiagem. Chorar pra aliviar o coração, pra lavar a alma. Chorar mesmo que seja  sem um porquê definido e ainda que escondido, só pela necessidade de desabafar o indizível, o inexplicável. Chorar porque não se tem medo de chorar. Aliás, chorar porque chorar não é uma virtude dos fracos, mas dos que têm coragem de transparecer que sentem. Que sentem dor, sentem angústia, sentem tristeza, sentem amor, sentem saudade, e por que não, felicidade.  Chorar porque, no fundo, ninguém é indiferente aos sentimentos do mundo. Chorar porque chorar é humano e, às vezes, tudo que a gente precisa é se permitir chorar; chorar muito, até a vontade de chorar passar.   

Mavi

#chorar #chorarépreciso #escrevaescrevaescreva #keeponwriting #omundodemavi

terça-feira, 16 de setembro de 2014


Pobre da sociedade pós-moderna, que se acha tão culta, tão crítica, tão dona de si. Desconhece, contudo, a regra básica de que informação, conhecimento e sabedoria são conceitos distintos e que não se confundem. Como resultado, a tal "sociedade da informação" vive, com o advento da internet e das redes sociais, seu maior paradoxo: quanto mais informação se tem, menos conhecimento se absorve e ainda menos sabedoria se produz. 

MaVi

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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Amores Inventados - O Cara do Metrô


O professor terminou a aula mais tarde naquela noite, como se ter aula até onze e quinze já não fosse suficiente. Onze e vinte, onze e meia, pouco importa. Qualquer minuto a mais parecia durar uma eternidade. Já nem sabia mais se o velho gagá lá da frente falava de Aristóteles, Kant ou Marx. Tanto faz, já morreram todos! Só quero ir embora daqui.

                Nem esperei a turma se levantar. Até aquela pirralhada toda se mover seriam mais 2o minutos de espera e eu corria o sério risco de perder o último carro do metrô. Não tenho saco, nem dinheiro pra isso.

                Eu era dessas meninas classe média baixa do interior que se muda pra capital a fim de estudar e, quem sabe, virar gente se inserindo na classe média alta paulistana. Da mesada que eu recebia dos meus pais, quase tudo ia pra pagar o aluguel do moquifo em que morava. A minha Bolsa Estágio eu rateava entre as contas de água, luz, comida, transporte, etc.

                Carro? Nem pensar. Mal tinha dinheiro pra bancar a manutenção da minha bicicleta.

                No início me revoltei com a merda da tal sociedade capitalista e com o meu status de menina classe baixa. Depois me conformei e passei a aceitar que durante alguns bons anos eu não iria poder me dar ao luxo de perder  o metrô pra casa.   

                Caminhei sozinha até a estação mais próxima da Sé.  Se me assaltarem, que levem tudo. Deixem só a minha dignidade, porque ela precisa descansar pra trabalhar amanhã.

                Apertei o passo quando vi no relógio que faltavam cinco minutos pro metrô encerrar suas atividades. 

                Coração pulando pela boca e eu quase pulando a catraca pra economizar R$ 1,50 da passagem de estudante.  Escadas rolantes paradas e eu numa vontade imensa de me jogar lá de cima, só pra chegar mais rápido lá embaixo.  Desisti da idéia. Fui de escada convencional. Quase tropecei no último degrau quando ouvi o som do vagão se aproximando nos trilhos. Provavelmente o último, meu Deus! Corri. Saltei pra dentro do carro segundos antes da sirene tocar e das portas se fecharem.

                Ufa, consegui. Infelizmente, consegui.

                Lá de dentro eu vi, estancado atrás da linha amarela, aquele alguém que não teve a mesma sorte que a minha. A calça skinny, a camisa de alguma banda alternativa, a toquinha caída atrás, o tênis Vans cano alto. Era o típico playboy alternas, desses hipstersinhos modernos que me enojavam. Diferentemente de mim, ele provavelmente não pertencia àquele lugar. Ao contrário de mim, ele provavelmente podia se dar ao luxo de bancar um táxi até em casa, ou até a lua se preciso fosse. Entristeci-me, sem entender porque, por não poder descer e dividir o táxi com ele.  

                O metrô partiu e eu nunca mais o vi, mas sonhei com aquele tênis vans cano alto ainda mais duas vezes naquela mesma semana.  

MaVi

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quarta-feira, 10 de setembro de 2014



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